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Opinião Segunda-feira, 24 de Junho de 2024, 06:59 - A | A

Segunda-feira, 24 de Junho de 2024, 06h:59 - A | A

DENISE MARIA ABECH

A ciência por trás das notícias sobre o Ozempic

Denise Maria Dotta Abech*

A obesidade é uma doença que tem se tornado uma epidemia mundial e que determina inúmeras complicações, entre elas, o aparecimento e piora do Diabete Mélito tipo 2, da hipertensão arterial, gordura no fígado e evolução para a cirrose, risco cardiovascular aumentado e doenças articulares que determinam grandes limitações as pessoas.

Várias opções de tratamento não medicamentoso como dieta, psicoterapia e atividade física são fatores obrigatórios para o êxito do tratamento medicamentoso.

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Recentemente, novas opções de medicamentos para tratamento da obesidade tem sido autorizadas e são muito promissoras, permitindo perdas significativas no peso dos pacientes, da ordem de 10 até 25% do peso inicial.

Um desses medicamentos, liberado inicialmente para o controle do diabete tipo 2, a semaglutida, nome comercial Ozempic, já foi aprovada pela ANVISA também para tratamento da obesidade e sobrepeso com co-morbidades, contudo, ainda não está liberada comercialmente para a obesidade.

Apesar de não liberada comercialmente para a obesidade, muitas pessoas, já veem utilizando o Ozempic para tratamento isolado para a obesidade, ou seja, sem orientação adequada, o que tem construído nas mídias muitas fake news a respeito de possíveis efeitos colaterais dessa medicação. Termos como “cabeça ou face de Ozempic”, “seio de Ozempic” e “bebês do Ozempic”, tem gerado a falsa ideia de que esses seriam efeitos colaterais relacionados ao uso da medicação, o que é uma inverdade!

O que nos diz a ciência por trás dessas notícias...

Sobre a “Cabeça ou face de Ozempic e seios de Ozempic” – a literatura é clara que medicações relacionadas a grandes perdas de peso fazem com que o indivíduo perca muita massa de tecido adiposo, mas também, de massa magra, além do fato de junto que junto as fibras musculares temos fibras de tecido adiposo intermuscular. Se os indivíduos utilizam drogas potentes, sem reposição proteica adequada ou atividade muscular localizada, a grande perda de peso e massa dará a ”falsa impressão” de aumento da sua cabeça em comparação ao restante do corpo que realmente reduziu em suas medidas. Da mesma forma, a falta de atividade física localizada associada a perda de peso rápida, determinam a queda de tecido das mamas, pois algumas mulheres têm abundante de tecido adiposo nas mamas, dando a falsa ideia que foi isso foi causado pela medicação. Reforço que isso só acontece quando não há o acompanhamento nutricional, suplementações adequadas individualmente, e de atividade física para aumento da massa muscular durante o tratamento. Isso se assemelha ao fato de uma pessoa que faz uma cirurgia bariátrica, perde muito peso muito rápido e não faz acompanhamento nenhum pós-cirurgia. Quando o tratamento é adequado não ocorrerá esta falsa ideia de desproporção corporal. Além disso, num acompanhamento correto o individuo fará exames para ver qual a quantidade perdida de tecido gorduroso, muscular, líquido e eletrólitos, permitindo ao médico endocrinologista, nutrólogo ou nutricionista a reposição das substâncias perdidas.

Se o paciente faz um acompanhamento especializado, usa doses adequadas da medicação, não usa aplicações diárias, pois o medicamento foi elaborado para uso semanal, e segue as orientações que o laboratório Novonordisk, que descobriu a molécula, preconiza em bula, nada disso irá acontecer.

Sobre o termo “bebê de Ozempic” – é sabido que fertilidade e peso estão intimamente ligadas. Mulheres com caquexia, ou seja, perdas ponderais severas, frequentemente, cessam sua menstruação e não ovulam. Além disso, o aumento do peso corporal está muito ligado a dificuldades de engravidar e que perdas de apenas 2,5% de peso podem melhorar o ambiente ovariano permitindo com mais facilidade uma gestação. Desta forma, é muito importante conversar com a paciente que irá utilizar a semaglutida sobre suas expectavas de gravidez, próximas ou não. Primeiro, porque o laboratório orienta a parada da medicação durante 2 meses anteriores a gestação. Segundo, porque, como efeitos colaterais comuns da semaglutida são náuseas e vômitos, sintomas comuns do início da gestação, pode ocorrer de uma gestação e esta não ser percebida de imediato. Sendo assim, é muito importante na consulta médica de pacientes que irão usar a semaglutida, discutir-se qual o tipo de anticoncepção estão fazendo, pois, se estão usando anticoncepcional oral, deveriam trocar de método, optando por um DIU ou outros métodos, porque se as náuseas e vômitos forem importantes poderão alterar a função do anticoncepcional oral. Mas, é importante lembrar que a semaglutida não interfere na biodisponibilidade do anticoncepcional. É importante também, que em caso de parada da menstruação, a paciente suspenda imediatamente a medicação e realize teste para gravidez.

“Lesóes de pele ou Alergia ao Glp-1 ou a semaglutida” – é importante saber que a semaglutida é um hormônio biológico e que pode acontecer da pessoa que a utiliza tenha uma alergia – mas é isso é muito raro. O mais comum é o mal uso da caneta e/ou da sua aplicação. No Brasil, a caneta de 0,5 mg dura 6 semanas após aberta. Outro fato que pode determinar lesões cutâneas é a utilização da droga sob forma de “clicks” e não da dose preconizada – este é um hormônio biológico proteico que tem um processo de fabricação refinado e que não pode ser utilizado de forma diferente da forma pela qual o fabricante está indicando. Ainda, se for feito seu uso diário você está alterando o padrão de indicação do fabricante e realmente algumas alergias podem acontecer. Quanto a frequência de reações alérgicas, muito infrequentes, essas são pequenas, leves e autolimitidas (locais) que não levam ao cessar do seu uso. Importante é lembrar da mudança no local de aplicação, o que pode reduzir o risco de lesões locais, que pequenos hematomas não são indicativos de reação alérgica, mas sim da forma errada da aplicação. E de manter a medicação na geladeira e aguardar um pouco para não fazer a aplicação do líquido gelado.

Por fim, é muito importante ressaltar que as pesquisas clínicas da Novonordisk, laboratório produtor da semaglutida, e sua farmacovigilância são muito sérias e que, se seguidas todas as orientações em bula e as elencadas nesse artigo, nenhuma das situações relatadas nas “fake news” sobre a droga fazem sentido.

Finalizo lembrando que a semaglutida em dose e apresentação especificamente indicadas para o tratamento da obesidade, nome comercial Wegovy – está prevista para ser lançada no segundo semestre deste ano.

*Denise Maria Dotta Abech é médica endocrinologista – CRM 2507 – MT - RQE- 76702, com mestrado em Epidemiologia pela UFMT e Doutorado em Patologia-sub-área neuroendocrinologia pela UFCSPA – RS, pós-graduação em Gestão em Cooperativas pela FGV. Também é professora do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMT e coordenadora do Curso de Medicina da Universidade de Cuiabá

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