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Economia Sexta-feira, 03 de Dezembro de 2021, 07:00 - A | A

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PRODUTIVIDADE EM XEQUE

Multinacionais "roem a corda" e deixam produtores sem fertilizantes e defensivos

Expectativa é que os produtores de MT colham mais de 37 toneladas de soja, mas as fornecedoras de defensivos alegam falta de matéria-prima e devolvem valores pagos e cancelam compras feitas há cerca de um ano

Felipe Leonel

Repórter | Estadão Mato Grosso

O bom volume de chuvas em Mato Grosso permitiu que os produtores de soja concluíssem o plantio mais cedo no estado. Só que a ajuda do clima pode não ser suficiente para garantir os bons resultados da safra. Agora, os produtores estão preocupados com a possibilidade de faltar defensivos agrícolas e fertilizantes, o que pode reduzir a produtividade das lavouras.

De acordo com o diretor administrativo da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja/MT), Nathan Belusso, as empresas que fornecem os produtos estão alegando falta de matéria-prima e cancelando os pedidos, feitos e pagos há cerca de um ano. Muitos produtores têm relatado que estão praticamente sendo "forçados" a fechar novas compras, desta vez com o valor mais alto. Há cerca de um ano, eles pagaram menos da metade do preço praticado hoje.

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"Está sendo devolvido o valor pago e o produto não está sendo entregue. O produtor, além de ficar sem esses defensivos para serem utilizados na sua lavoura, ainda fica com esse prejuízo, pois, se entrar comprando no mercado, pode pagar até 3 vezes mais caro do que o valor negociado lá atrás", expôs Belusso ao Estadão Mato Grosso.

"Eu não posso falar se isso é uma manobra ou não, o cenário indica muito isso", responde Nathan ao ser questionado se o cancelamento das compras poderia ser uma estratégia das multinacionais para vender seus produtos a preços mais elevados.

Segundo Belusso, as multinacionais que fornecem os defensivos agrícolas e fertilizantes não estariam conseguindo atender a demanda dos produtores mato-grossenses e brasileiros. Ele faz uma comparação com a última safra, quando foi observada uma crise hídrica muito grande e prejudicou a produtividade. Mesmo assim, os produtores conseguiram cumprir todos os contratos de venda.

"Quase todos os produtores conseguiram honrar todos os contratos, mesmo aqueles negociados lá atrás com um preço muito abaixo do que estava sendo comercializado. A gente vê, mais uma vez, essa incoerência, onde o produtor honra seus compromissos e agora, num cenário parecido, as empresas não estão honrando com os compromissos que fizeram com os produtores", conta.

A falta de defensivos e fertilizantes pode afetar a produtividade no campo, que está estimada em mais de 37 milhões de toneladas de soja somente em Mato Grosso, o que representaria um novo recorde de produção. A área plantada nesta safra chegou a 10,86 milhões de hectares, 3,5% maior do que na safra anterior, aponta o boletim de do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) da última segunda-feira (29).

"É um ano que o produtor tinha expectativa muito alta e o clima, principalmente nesse início de safra ajudou, mas esses ajustes de mercado vêm prejudicando o perfeito andamento da nossa safra. A gente divulgou esse alerta aos nossos produtores, vimos há vários meses alertando, falando que se comprou para armazenar o produto, não deixar para receber depois", explica.

Em nível nacional, a produção pode chegar em 142 milhões de toneladas. Além da boa previsão de precipitação, os agricultores brasileiros também contam com a valorização da saca, que está em R$ 149, para potencializar os lucros.

Para garantir que o bom momento se transforme em lucro, os produtores estão avaliando comprar os produtos mais caros ou partir para os defensivos biológicos, que demoram mais tempo para produzir os mesmos efeitos. "A principal estratégia dos produtores é encontrar algum produto semelhante aos que foram adquiridos lá atrás, mas como a falta de produtos está muito grande, muitos estão indo para alguns produtos biológicos", afirma.

Apesar de a expectativa continuar positiva para a safra 2021/22, ainda é cedo para dizer o quanto a ‘crise dos fertilizantes’ pode afetar na produtividade, já que a colheita acabou de ser concluída. Acionar a Justiça para garantir o recebimento dos defensivos também é avaliado. "Era para termos um ano perfeito e, infelizmente, por irresponsabilidade dessas multinacionais, os produtores estão sendo prejudicados", conclui.

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