Dollar R$ 5,41 Euro R$ 5,80
Dollar R$ 5,41 Euro R$ 5,80

Cidades Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2021, 14:00 - A | A

Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2021, 14h:00 - A | A

RETROSPECTIVA 2021

Vacina trouxe esperança para retomarmos a vida e fome voltou a bater à nossa porta

Cátia Alves

Editora-adjunta

Dia 18 de janeiro de 2020. A esperança de um novo futuro, sem a covid-19, deixa de ser apenas um sonho e começa a dar os primeiros passos para se tornar realidade. Mato Grosso deu início ao Plano Nacional de Imunização (PNI) com a vacinação simbólica de dez profissionais da linha de frente da pandemia no estado. As primeiras doses da CoronaVac foram aplicadas na primeira fase, que contava com 126.160 doses da vacina, que iria contemplar 60.074 pessoas, com duas doses, dentre elas indígenas.

Impossível não escrever sobre esse dia e não se emocionar. As doses que tanto esperávamos estavam em solo mato-grossense e a expectativa aumentou. Naquele dia 1.567 casos foram notificados 19 pessoas perderam a vida. O que não imaginávamos é que o cenário iria piorar, e muito.

- FIQUE ATUALIZADO: Entre em nosso grupo do WhatsApp e receba informações em tempo real (clique aqui)

- FIQUE ATUALIZADO: Participe do nosso grupo no Telegram e fique sempre informado (clique aqui)

Apesar do início da campanha de vacinação, as doses ainda eram insuficientes para imunizar toda a população, já que o planta inteiro precisava de vacinas e poucas delas tinham sido aprovadas.

Redes Sociais

fila de carro funerário

Fila de carros funerários à porta da Santa Casa de Cuiabá chocou a população em meio ao pico da segunda onda

A variante delta, identificada pela primeira vez em Manaus, rapidamente se alastrou por todo o país e mundo. Com maior poder de propagação, a variante foi responsável por colapsar o sistema de saúde, o que agravou ainda mais a situação dos pacientes covid-19, que além de lutar contra o novo vírus, ainda ficaram à mercê da sorte para conseguir vagas em hospitais.

Os meses de março e abril foram tenebrosos para Mato Grosso, com a segunda onda da pandemia atingindo seu pico. Em março, o estado registrou 1.976 mortes. Em abril, 2.029. Naquela época, a população ficou chocada ao assistir vídeos que mostravam filas de rabecões parados em unidades de saúde para pegar corpos. Os mesmos carros também faziam filas em cemitérios para o sepultamento das vítimas.

De 1º de janeiro de 2021 até o dia 29 de dezembro, Mato Grosso confirmou 355.587 casos, sendo 344.567 se recuperaram e 9.114 morreram por causa do vírus. As outras 1.699 pessoas ainda estão em tratamento.

Em meio a essas perdas e novos casos, Mato Grosso deu passos largos e iniciou a vacinação da população. Uma batalha foi travada para que o público-alvo das campanhas fossem levar a 'picadinha' que os protegeria da covid-19. Nesse tempo, 4.707.168 doses fossem aplicadas, com uma cobertura vacinal completa de 67,80% da população.

Conforme mais pessoas se vacinavam, mais os números de novos casos, internações e óbitos foram diminuindo. Municípios como Rondonópolis, conforme avançavam na vacinação, pararam de registrar óbitos. Por quase um mês, a cidade não perdeu nenhum habitante. Além disso, foi possível desativar os leitos de tratamento para pacientes em estado grave e assim diminuir os custos na saúde.

A informação de que o resultado da imunização estava aparecendo, encheu o coração de esperança e era possível ver que através da vacina a economia poderia voltar a respirar, e as incertezas diminuíram. O pai de família poderia voltar a procurar emprego, a mãe solo poderia vislumbrar uma vaga na creche para buscar um trabalho e criar os filhos, a vida foi começando a entrar nos trilhos, já que antes os obrigou a procurar meios para sobreviver.

Uma das consequências da grave crise econômica, reflexo da pandemia, é a volta da fome à nossa volta. Campanhas de arrecadação de alimento, pessoas em situação de mendicância e histórias tristes começaram a ganhar cada vez mais espaço em nossas vidas.

Gilberto Leite | Estadão Mato Grosso

FILA DOS OSSINHOS SACOLÃO POBREZA (54).jpg

A fome ficou escancarada na capital do agronegócio e as imagens rodaram o país. Conseguir a doação de ossos se tornou a saída para parte da população, que já não sabe se almoça ou janta

No dia 17 de julho, o Brasil se chocou ao ver a realidade da fome instalada em Cuiabá, capital do agronegócio, porta de entrada do estado que “alimenta o mundo”. Pessoas passaram a se aglomerar e a fazer filas enormes em frente a um açougue da capital que tem a cultura de fazer doação de ossos. O estado que teve faturamento de U$ 1,63 bilhão em exportação de carne em 2020, agora assistia a população de sua capital mendigando ossos para comer, mostrando não só o problema da fome, mas escancarando a desigualdade social em Mato Grosso.

A fila continua ainda hoje, seis meses depois dos primeiros vídeos. Neste mês de dezembro, o Estadão Mato Grosso voltou ao açougue e conversou com a dona de casa Pedrosa Campos de Souza. Ela caminha cerca de 4 quilômetros todas as semanas para receber a doação de ossinhos e cesta básica e estava ali para conseguir a última doação antes do Natal.

Mesmo com problemas respiratórios, provocados pela asma, dona Pedrosa supera a distância, fazendo o percurso em quase duas horas de caminhada. "Está difícil, tenho problema de saúde, asma, tenho um bocado de coiseira e tá difícil. Eu vim aqui para ver se consigo alguma coisa, cheguei na faixa de 8 horas. Pra mim, é uma caminhada muito longa, que eu moro pra lá (SIC)", afirmou à reportagem do Estadão Mato Grosso, enquanto apontava a direção de sua residência no bairro Altos da Serra 2.

Além de enfrentar as distâncias para colocar alimento à mesa, dona Pedrosa ainda precisava usar a imaginação para cozinhar, já que o gás havia acabado. Ao final da fila, questionada sobre como seria feita a refeição, ela apenas deu uma gargalhada e garantiu que iria “dar um jeito” e que poderia cozinhar utilizando etanol.

O retrato da fome também foi parar nas escolas. Uma das primeiras a fecharem desde o início da pandemia, as unidades de ensino permaneceram trancadas por mais de ano. Quando os alunos voltaram para as salas de aula, não era só a fome por apreender que sobressaía.

“Ô professora, o almoço não vai vir logo? Eu tô com fome”. Essa frase se tornou recorrente para os educadores da rede pública de ensino em Cuiabá, que têm de lidar com mais um desafio nesse retorno dos estudantes às salas de aula: a fome. A merenda, que antes era um reforço na dieta dos alunos do Ensino Público, agora se tornou a principal refeição dessas crianças, pertencentes à classe mais atingida pelo aprofundamento da crise econômica.

merenda

Para milhares de cuiabaninhos, a merenda escolar deixou de ser um reforço e passou a ser a refeição principal

Segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), apenas 1 em cada 4 crianças realiza as três principais refeições do dia – café da manhã, almoço e janta – no país. Os números preocupam porque ficar de barriga vazia durante as aulas afeta o desenvolvimento e o aprendizado desses estudantes.

A professora Ana* que trabalha na EMEB Celina Fialho Bezerra, no bairro Altos da Serra, relata que as crianças têm consumido cada vez mais a merenda da escola, chegando a comer três vezes.

“Uma delas chegou a dizer, ‘profê, lá em casa está difícil pra gente conseguir as coisas’. Eu incentivo mesmo a comer, para não irem para casa com fome. Eles também reclamam de sono e estão lentos. Muito mais lentos!”, relatou.

A desigualdade social que já era sentida na pele por esses estudantes, foi acentuada agora, com a pandemia de covid-19. A crise sanitária global fechou inúmeras empresas e deixou muitas pessoas desempregadas. O que já estava ruim, ficou ainda pior. Colocar o alimento na mesa deixou de ser algo habitual e passou a ser um desafio diário para milhares de famílias.

search