A Associação Tece Arte Limpo Grande, de Várzea Grande (MT), preserva uma das técnicas mais emblemáticas da região: a tecelagem manual de redes e faixas, reconhecida como Patrimônio Cultural Material e Imaterial do município. Agora, o grupo lança a coleção “Pantaneiras”, desenvolvida durante o Laboratório de Inovação Artesanal da Rede Artesol (LAB 2025), que revisita o tear tradicional e o conecta às cores, formas e ritmos do Pantanal.
As novas peças surgem da imersão do designer Serggio Melo na comunidade, que a convite da ONG Artesol, acompanhou o cotidiano das artesãs e o diálogo profundo que elas mantêm com o território. “Quando cheguei ali, passei a observar como tudo é construído a partir desse diálogo com o território, das vestimentas ribeirinhas às cores que se refletem entre a pele e o rio. Foi isso o que guiou a criação das peças da coleção, a tentativa de ver o mundo com o olhar de quem o tece, com calma, atenção e respeito pelo tempo das coisas”, afirma Serggio.
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Uma metodologia colaborativa
A coleção foi desenvolvida dentro do LAB Artesol, projeto realizado pela Artesol que integra pesquisa, formação técnica, design colaborativo e fortalecimento produtivo para ampliar a autonomia de grupos artesanais no Brasil. A metodologia reúne uma tecnologia social que costura tradição, identidade e inovação, permitindo que saberes intergeracionais se afirmem como potência econômica, cultural e ambiental.
De acordo com Josiane Masson, diretora executiva da Artesol, essa abordagem transforma não apenas o resultado da produção, mas a própria relação das artesãs com seu território. “O LAB Artesol nasce da escuta e da coautoria. Ele cria condições para que técnicas ancestrais revelem novas narrativas e se fortaleçam diante dos desafios contemporâneos. Em Limpo Grande, vimos o tear se tornar também um instrumento de consciência: as cores, os fios e os pontos passaram a expressar um Pantanal que existe, o que desapareceu e aquilo que ainda resiste”, explica.
A partir dessa metodologia, “Pantaneiras” apresenta peças que reinterpretam a tradição local com profundidade e estética que remete às padronagens locais. A Bolsa Pintada, com manchas orgânicas e linhas vivas, homenageia tanto a fauna pantaneira quanto os teares ancestrais dos povos Guanás, que se dividem em etnias como Terena, Quiniquinau e Exoaladi e são reconhecidos pelo artesanato em diferentes materiais. A Bolsa Viola incorpora as curvas da viola de cocho, transformando o som em estrutura.
As faixas pantaneiras, presentes nas alças e cinturas, evocam as vestimentas ribeirinhas e as paisagens onde a canoa desliza e a onça bebe água. Em outras peças, franjas, tramas e cores acompanham o movimento dos peixes, o repouso das vitórias-régias e a luz dos amanheceres que refletem nas águas rasas do Pantanal.
Um dos destaques do processo criativo está na transformação do olhar das artesãs sobre o próprio trabalho. “Essa coleção é a realização de um sonho antigo. Trabalhar com o Serggio e com a Artesol foi uma das coisas mais bonitas que aconteceram para a associação. Ele enxergou em nós algo que não estávamos acostumadas a ver. Eu tenho certeza que essa parceria será um sucesso, as peças ficaram maravilhosas, superou as nossas expectativas e espero de verdade que possam vender e que venham mais encomendas”, afirma Jilaine Maria, artesã da Tece Arte.
Em “Pantaneiras”, tradição e território se entrelaçam. E, fio a fio, as mulheres de Limpo Grande mostram que o tear pantaneiro segue vivo — sustentado pela memória, pela técnica, pela paisagem e pelas mãos que continuam a tecer o futuro. No dia 13 de dezembro, as peças serão apresentadas em uma mostra no Museu A Casa do Objeto Brasileiro, em Pinheiros, São Paulo, referência em projetos e exposições de artesanato e design.
A atuação com Tece Arte também reflete um movimento mais amplo impulsionado pela Artesol, que há décadas trabalha para fortalecer o artesanato de tradição cultural em todo o país. Ao longo de 2025, a organização esteve presente em 25 estados e 539 municípios, capacitou 290 artesãos em campo e acompanhou três grupos no Laboratório de Inovação Artesanal - LAB, que impactou diretamente 85 artesãos e resultou na criação de 38 novos produtos, fortalecendo renda, autonomia feminina, inovação e sustentabilidade cultural.
A Artesol
A Artesol é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua há mais de 25 anos para fortalecer o artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio da Rede Artesol — maior plataforma digital de mapeamento e articulação de artesãos do país —, promove capacitação, inclusão digital e acesso a mercados, valorizando o fazer manual como instrumento de desenvolvimento social, cultural e ambiental sustentável.











