Um relatório da Polícia Civil, que embasou a deflagração da Operação Gorjeta, aponta que o vereador de Cuiabá Chico 2000 (PL) atuava como proprietário de fato da Peixaria Água na Boca, localizada na região do São Gonçalo Beira Rio, período em que ele afirmava ter trabalhado apenas como garçom enquanto esteve afastado do cargo por determinação judicial.
Segundo a investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), policiais realizaram diligências presenciais no estabelecimento, inaugurado em abril de 2025, e constataram que Chico 2000 dava ordens a funcionárias, orientava o funcionamento do local e se comportava como responsável direto pelo negócio, apesar de a empresa estar formalmente registrada em nome de uma terceira pessoa.
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Evitando depressão
Após retornar à Câmara Municipal, o vereador utilizou a tribuna para afirmar que trabalhou como garçom durante 125 dias de afastamento, alegando que precisava “ocupar a mente” para não entrar em depressão. A declaração foi feita em setembro de 2025, quando Chico ainda enfrentava os desdobramentos da Operação Perfídia, que apura o recebimento de suposta propina da empreiteira HB20, responsável pelas obras do Contorno Leste.
Para os investigadores, porém, a versão apresentada publicamente não condiz com os elementos colhidos durante a apuração.
“Apesar das verificações in loco, chamou a atenção que o investigado deixa transparecer ao público que trabalhou como ‘garçom’, quando, na verdade, constatamos que ele atuava como verdadeiro proprietário, o que sugere tentativa de ocultação patrimonial”, diz trecho do relatório policial.
PIX, obras e ordens a funcionários
A polícia também analisou conversas de WhatsApp entre Chico e uma mulher identificada como Joselaine Rodrigues da Silva, apontada no
relatório como sua esposa e funcionária da peixaria. Os diálogos mostram o vereador tratando de obras no restaurante, pagando despesas e orientando prestadores de serviço.
Um dos exemplos citados no relatório é o envio de um PIX no valor de R$ 5 mil, feito por Chico 2000, identificado como pagamento de “compras para o Restaurante Água na Boca”.
Além disso, durante a vigilância policial, os agentes registraram imagens do vereador conversando com clientes enquanto atendentes realizavam o serviço, reforçando a avaliação de que ele exercia papel de comando no local.
Embora atue, segundo a polícia, como proprietário de fato, a peixaria está registrada na Junta Comercial em nome de Márcia Rodrigues da Silva, apontada no relatório como parente de Joselaine. Para os investigadores, a estrutura indica possível uso de interpostas pessoas para ocultar patrimônio e movimentações financeiras.
O relatório conclui que há vínculo direto de Chico 2000 com o restaurante e que a versão apresentada publicamente pelo parlamentar não corresponde à realidade apurada durante a investigação.
A Operação Gorjeta investiga um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares, no valor de R$ 676 mil, envolvendo vereadores, assessores, um instituto sem fins lucrativos e empresas privadas. Além de Chico 2000, também foram alvos da operação seu chefe de gabinete, empresários e dirigentes do Instituto Brasil Central (Ibrace).
Os crimes investigados incluem peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro, e a apuração teve origem no material extraído do celular do vereador durante a Operação Perfídia, deflagrada em abril do ano passado.
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