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Política Segunda-feira, 24 de Novembro de 2025, 17:13 - A | A

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TRILHOS PARA O FUTURO

O sonho de meio século que a Assembleia Legislativa ajudou a realizar

Felipe Leonel

Repórter | Estadão Mato Grosso

Um sonho que existe há mais de 50 anos, atravessou pelo menos duas gerações e está se tornando realidade após decisão histórica da Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Assim pode ser resumida a luta pela chegada dos trilhos a Cuiabá, que teve início em 1974, por meio do ex-senador Vicente Emílio Vuolo, que dá nome à ferrovia estadual em construção.

A obra avança a passos largos e é hoje uma das maiores obras de infraestrutura do Brasil, sendo tocada pela Rumo, com investimento 100% privado. Quando estiverem prontos, os trilhos vão ligar o Porto de Santos (SP) à maior região produtora de grãos do país e à capital mato-grossense.

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A continuidade desse sonho só foi possível graças a uma legislação elaborada pela Assembleia Legislativa, que permitiu a concessão da ferrovia por meio de autorização do Estado. Uma mudança na legislação permitiu a construção de cerca de 730 km de trilhos, que ligarão o maior terminal de cargas da América Latina, em Rondonópolis, a Lucas do Rio Verde e Cuiabá.

Gilberto Leite | Estadão Mato Grosso

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Francisco Vuolo é filho do ex-senador Vicente Emílio Vuolo e fundador do Fórum Pró-Ferrovia

Em entrevista exclusiva ao Estadão Mato Grosso, o presidente do Fórum Pró-Ferrovia, Francisco Vuolo, contou um pouco da história da qual seu pai, o ex-senador Vicente Emílio Vuolo, que foi protagonista dessa luta até o final da sua vida, em 2001. Porém, a inspiração de Vicente veio de seu pai, o italiano Francisco Palmieri Vuolo.

Francisco Vuolo conta que, quando seu avô chegou a Cuiabá, em 1920, ficou intrigado por um país continental como o Brasil praticamente não ter ferrovias. Essa inquietação do avô passou para seu pai, Vicente Vuolo, que encampou essa luta quando foi eleito deputado federal, em 1974, há mais de meio século.

A necessidade de uma ferrovia ficou mais evidente após a divisão do estado de Mato Grosso, já que os trilhos ficaram em Mato Grosso do Sul. Vuolo lembra que seu pai teve ajuda do engenheiro Domingos Iglésias Valério, que elaborou o projeto técnico apresentado ao Congresso Nacional para alterar o Plano Nacional de Viação.

Com essa alteração, feita durante o governo Ernesto Geisel, no período de ditadura militar, foi possível vislumbrar a ligação ferroviária de Mato Grosso com o restante do Brasil. Em 1976, Geisel sancionou a lei que previa a ligação ferroviária de Aparecida do Taboado (MS) a Rondonópolis e, posteriormente, Cuiabá. Porém, os trilhos só existiam no papel.

Esse foi o início, o primeiro ato concreto, que foi uma ação do Legislativo”, disse Vuolo, destacando o protagonismo do Poder Legislativo nesse sonho, mesmo durante a ditadura militar. Após a mudança na legislação, começou o segundo capítulo dessa batalha, que foi a construção da ponte rodoferroviária sobre o Rio Paraná.

A ponte liga os municípios de Rubinéia (SP) a Aparecida do Taboado (MS) e é considerada a maior ponte rodoferroviária da América do Sul, com 3,7 mil metros, concluída em 1998. No entanto, as articulações começaram ainda em 1978, junto com o governo de São Paulo, que foi o principal financiador da obra.

Com a conclusão da obra, foi possível levar os trilhos até Alto Taquari e Alto Araguaia, em Mato Grosso. Só em 2013 a ferrovia começou a operar em Rondonópolis, onde os trilhos ficaram ‘estacionados’ por quase 10 anos. A continuidade da ferrovia só foi possível com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 16/2020, gestada inteiramente na Assembleia Legislativa.

Gilberto Leite | Estadão Mato Grosso

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Assembleia Legislativa de Mato Grosso teve papel fundamental no avanço da Ferrovia Senador Vicente Emílio Vuolo

A nova legislação autoriza o Governo do Estado a conceder a construção e exploração de ferrovias por meio de autorização ‘simples’, sem necessidade de investimentos do Poder Público, algo inédito até então no Brasil. Inovador, esse modelo serviu de inspiração para outros estados e até para o Governo Federal, que no ano seguinte editou o Marco Ferroviário nos mesmos termos.

Na avaliação do presidente do Fórum Pró-Ferrovia, Francisco Vuolo, o Poder Legislativo teve um papel fundamental na realização de um sonho.

Se não houvesse a vontade política para poder ajustar as leis [isso não seria possível], criar os instrumentos necessários, pois a iniciativa privada só vai naquilo que ela tem retorno, mas para ela poder ir, é preciso criar os instrumentos necessários. Então, o protagonismo e a visão vieram da classe política”, destaca Vuolo.

Nas palavras de Francisco, a construção da ferrovia e sua chegada até Cuiabá é uma conquista da Assembleia Legislativa. Para aprovar as mudanças na legislação, os deputados fizeram articulações junto com a empresa interessada para obrigar a construção dos trilhos até Cuiabá, visando desenvolvimento econômico e social.

A ferrovia é uma conquista do Poder Legislativo e tem como aliada a iniciativa privada”, enfatizou.

A articulação junto com a Rumo Logística e o papel da Assembleia, ao criar a lei, teve papel fundamental, porque se não tivesse acontecido isso, nós não teríamos a ferrovia”, concluiu.

Distrito Industrial tem capacidade para receber mais indústrias, diz Aedic

O presidente das Associação das Empresas do Distrito Industrial de Cuiabá (Aedic), Domingos Kennedy Sales, destaca o potencial da ferrovia para a economia da capital. Cuiabá já tem outros atrativos, como boa disponibilidade de energia elétrica, proveniente das PCHs e também do gás natural da Bolívia, o que garante menor custo de operação às indústrias.

Além disso, Cuiabá tem um ‘plano B’ em caso de falta de energia, que é a termoelétrica Âmbar Energia, que pode ser acionada em caso de um “apagão”. Portanto, a capital mato-grossense tem capacidade de atrair as agroindústrias e agregar valor à produção agropecuária mato-grossense, como a soja e o milho. Porém, no quesito logística a capital fica prejudicada, devido a sua distância dos centros consumidores e dos portos que abrem caminho para o comércio internacional.

Daniel B. Meneses/Secom-MT

DISTRITO INDUSTRIAL

Distrito Industrial possui energia mais barata para empresas se instalarem, mas ainda é carente no quesito logística

No Distrito tem energia suficiente, tem uma estrutura que não vai ter lugar nenhum em Mato Grosso. E a hora que chegar o ramal, aí fecha a conta de tudo. Ninguém segura Cuiabá, ninguém segura o Distrito. Aqui tem de tudo, tem faculdade, tem hospital, tem aeroporto”, disse Sales, em entrevista ao Estadão Mato Grosso.

Kennedy destaca que já existem diversas indústrias de transformação no Distrito que seriam beneficiadas pelos trilhos, pois receberiam matérias-primas com custo logístico melhor, além de poder escoar os produtos para os grandes centros consumidores, como São Paulo e a região Sudeste como um todo.

São indústrias de tintas, reciclagem, transformadores, telhas, vigas e tubos, além de produtos alimentícios, como torrefação de café, produção de farinha, esmagadoras de soja. Além delas, a capital pode atrair usinas de etanol, que podem vir a ser instaladas na capital.

Essas indústrias não usam matéria-prima daqui, vem tudo de caminhão para cá”, afirma. “Imagina se nós tivermos um terminal de ferrovia aqui, com a matéria-prima chegando tudo de trem, vai ser excelente. Nós seríamos muito mais competitivos e, por isso, estamos lutando para trazer essas indústrias e gerar empregos”, afirma.

 Terminal de Dom Aquino começa operação em 2026, afirma Rumo

De acordo com a empresa Rumo Logística, responsável pela construção da ferrovia, o primeiro terminal da ferrovia estadual começará a funcionar já no segundo semestre de 2026, em Dom Aquino. O terminal de transbordo fica localizado às margens da BR-070, entre os municípios de Dom Aquino e Primavera do Leste.

As obras do terminal foram iniciadas em novembro de 2024 e empregam cerca de 850 trabalhadores de forma direta e outros 1,7 mil indiretos. Além disso, a empresa já está contratando os profissionais que irão atuar no terminal quando ele estiver concluído, para treiná-los.

Divulgação Rumo

operador trem rumo logística

Terminal da Rumo em Dom Aquino deve começar a operar no segundo semestre de 2026

O novo terminal iniciará operação no segundo semestre de 2026, com 10 milhões de toneladas de capacidade anual para grãos, tendo como opção o acréscimo de novos módulos futuramente”, afirma a empresa, em comunicado enviado à reportagem do Estadão Mato Grosso.

Segundo a Rumo, as obras de construção da ferrovia alcançaram o maior número de contratações, com cerca de 5 mil trabalhadores atuando em diversas frentes no ano de 2025. A obra contribuiu para que a construção civil se destacasse como o segmento com maior saldo positivo de contratações formais em Mato Grosso, representando quase um terço do total de trabalhadores de infraestrutura no estado.

As obras estão dentro do cronograma e a previsão é que sejam concluídas em 2030. Até o momento, foram investidos cerca de R$ 5 bilhões. A Rumo pontua, entretanto, que a obra é planejada por fases, assim como os investimentos. A estimativa é de que sejam investidos cerca de R$ 15 bilhões para a realização do antigo sonho mato-grossense: ver os trilhos chegando ao coração do agronegócio e à capital, onde vão criar uma nova era para a economia do estado.

 
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