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Polícia Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2025, 14:56 - A | A

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Relatório aponta tortura, maus-tratos e ameaças a membros do TJ na penitenciária Ferrugem, em Sinop

Fernanda Leite

Um relatório de inspeção realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso revelou um cenário grave de tortura, violência institucional, maus-tratos e afronta direta ao Poder Judiciário na Penitenciária Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, conhecido como Presídio Ferrugem, em Sinop. O documento traz ainda 50 presos com lesões pelo corpo. 

A inspeção ocorreu nos dias 29 e 30 de outubro de 2025, após denúncias de práticas de tortura contra pessoas privadas de liberdade. O trabalho foi conduzido por magistrados do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Prisional (GMF/TJMT), Marcos Faleiros da Silva e Paula Tathiana Pinheiro com apoio da Defensoria Pública, Conselhos de Direitos Humanos e representantes do sistema penitenciário estadual. 

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Segundo o relatório, a unidade, projetada para 1.328 presos, abrigava 1.595 detentos, configurando superlotação. No dia da inspeção, apenas 34 policiais penais estavam em serviço, apesar de a unidade contar com 166 agentes lotados. 

Tortura física e psicológica

O documento descreve ações rotineiras de um método chamado de “procedimento”, que envolve obrigar presos a permanecerem sentados por longos períodos, sem camisa ou calçados, com mãos na nuca, sob xingamentos, humilhações e agressões físicas. As práticas relatadas incluem: disparos de balas de borracha contra presos rendidos, inclusive dentro das celas; uso de spray de pimenta de forma abusiva, esfregado diretamente nos olhos dos detentos e lançado em celas superlotadas; espancamentos, chutes e socos sem justificativa disciplinar; uso de cães para intimidar e ferir presos, com registro de mordidas; relatos e imagens mostram cães colocados em reservatórios de água, posteriormente utilizados pelos presos para consumo. 

Exames de corpo de delito confirmaram lesões compatíveis com os relatos. 

Latão, calor extremo e omissão médica

O relatório também aponta o uso do chamado “latão”, chapas de aço que fecham completamente as celas, como instrumento de punição coletiva. O fechamento impede a circulação de ar por horas, transformando os espaços em verdadeiras estufas, especialmente quando combinado com falhas nos exaustores.

Além disso, foi constatado grave descaso com o atendimento médico, com relatos de presos feridos, doentes e com transtornos psiquiátricos sem assistência adequada. O documento registra casos de automutilação, infecções graves sem tratamento, falta de medicamentos e respostas repressivas a surtos psicológicos, em vez de atendimento clínico. 

Poder paralelo e desprezo ao Judiciário
Um dos pontos mais sensíveis do relatório é a constatação de um poder paralelo dentro da unidade. Diversos presos relataram que a direção do presídio afirma abertamente que “quem manda na cadeia” é a própria administração, desdenhando de visitas e determinações de juízes e desembargadores.

Há relatos de que a violência se intensificava logo após inspeções judiciais, como forma de retaliação às denúncias feitas pelos presos, reforçando a percepção de impunidade e ausência de controle externo efetivo. 

Ameaças e intimidação contra autoridades

O relatório aponta ainda que durante uma oitiva, um preso afirmou que haveria um plano para atentar contra a integridade física de autoridades judiciais, com a suposta facilitação da retirada de algemas e ausência deliberada de policiais penais na sala de audiência.

"À vista do exposto, a equipe de inspeção conclui que há, no Presídio Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira (Ferrugem), em Sinop/MT, prática sistemática e institucionalizada de tortura e de tratamento desumano, cruel e degradante, associada à consolidação de um poder paralelo voltado ao exercício de “justiça própria”, em frontal afronta ao Tribunal de Justiça, ao GMF e às demais instâncias de controle. Verificam-se, ainda, indícios consistentes de tentativa de atentado contra o Juiz de Direito e o Promotor de Justiça que atuavam na inspeção", consta no documento. 

O documento é assinado pelo juiz Marcos Faleiros, no último dia 10 de dezembro, onde ele pede encaminhamento do relatório para à Corregedoria-Geral de Justiça e ao GMF – Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo, para a adoção das providências cabíveis. Os objetos apreendidos e as imagens das câmeras de segurança  serão encaminhados ao GMF.

Álbum de fotos

Relatório

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