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Opinião Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2021, 06:30 - A | A

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EDITORIAL - 24/12/2021

Questão de humanidade

Da Editoria

Editoria | Estadão Mato Grosso

Às vésperas do Natal, centenas de pessoas enfrentaram chuva e frio durante a madrugada desta quinta-feira, 23, na esperança de conseguir uma doação de ‘ossinhos’ e reforçar a parca ceia em celebração ao nascimento de Cristo. Algumas chegaram a dormir ao relento para não perder a chance nem o lugar na fila, expondo mais uma vez a contradição de um estado que produz comida para alimentar o mundo, mas não consegue prover o básico para seus cidadãos.

A extensa fila da fome que cruzava os quarteirões próximos ao Atacadão da Carne reunia diversas histórias de miséria. Histórias como a da dona Pedrosa, que enfrenta as crises de asma para caminhar mais de quatro quilômetros na companhia de suas vizinhas todas as semanas, em busca do fardo de ossinhos. Ou da senhora Juraci, que acolheu os cinco netos após a morte de sua filha e ‘se vira nos 30’ para conseguir alimento para suas crianças.

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Eles não estão sós. Dados divulgados recentemente pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) apontam que o Brasil tem pelo menos 19 milhões de pessoas passando fome. Além disso, 55% das famílias, o que representa cerca de 119 milhões de pessoas, estão vivendo em situação de insegurança alimentar (sem acesso regular e permanente a alimentos).

A razão desse aumento rápido da fome é a combinação de falta de crescimento econômico por anos a fio, que acabou deixando milhões de pessoas desempregadas, com o desmonte das políticas sociais de combate à fome e à miséria. Essa crise foi temperada ainda pela maior inflação de alimentos e combustíveis que vimos nas últimas duas décadas, o que acabou criando uma ‘tempestade perfeita’.

Ao contrário do restante dos países, o ‘celeiro do mundo’ também não tem estoque de alimentos, que poderia ter sido acionado para conter o aumento avassalador nos itens da cesta básica ou em caso de emergências. A FAO, organização da ONU para a alimentação, recomenda que os países mantenham pelo menos três meses de estoque de alimentos, para garantir a segurança de sua população. O estoque existente no Brasil hoje não daria para dois dias. Em um país que se vangloria por sua exportação de grãos e outros produtos agrícolas, essa constatação soa, no mínimo, incoerente.

A classe média reclama, mas ainda consegue comer. Os pobres agonizam e sofrem. Alguns, pelo menos, têm a opção de correr para a fila do ossinho e conseguem encontrar algum sustento na sobra dos alimentos que não são vendidos. Eles precisam de mais do que solidariedade. Precisam de um governo que realmente olhe para a economia do país e saiba geri-la de forma competente, sem arroubos populistas. Precisam de políticas públicas e de uma ação firme do governo federal para manter os preços dos alimentos em um patamar ‘comprável’. Sem nada disso, resta-nos exercitar a humanidade e a solidariedade para ajudar-nos uns aos outros.

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