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Opinião Sábado, 08 de Novembro de 2025, 20:24 - A | A

Sábado, 08 de Novembro de 2025, 20h:24 - A | A

ESCRITORA ANÔNIMA

Quando a Justiça fecha os olhos para as violências que não deixam marcas

Por uma advogada, por uma mulher violentada instit

Sou mulher e advogada, e já acreditei que bastava levar a verdade aos tribunais para que ela fosse reconhecida. Acreditei que, diante de provas, laudos e da própria lei, a Justiça saberia enxergar a violência que acontece quando o controle e a humilhação tomam o lugar do afeto. Mas descobri que existe uma dor ainda mais profunda do que a causada por quem nos fere: é a dor de ser ferida novamente pelo próprio sistema que deveria proteger.

Nos autos, a violência mudou de forma. Deixou de vir por gestos e passou a vir por palavras, por petições, por decisões frias que chamam de “questão cível” o que é, na verdade, violência patrimonial e psicológica. Os tribunais ainda resistem a reconhecer que a Lei Maria da Penha foi feita para muito além das agressões físicas. Ela é uma lei de dignidade, de reconstrução, de proteção integral da mulher. Mesmo assim, muitas vezes ela é reduzida a um rótulo penal — e o que não sangra, o que não aparece, o que não causa fratura, segue invisível.

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Quando a Justiça se recusa a aplicar essa lente, ela se torna parte do problema. Cada decisão que ignora o contexto de violência, cada voto que transforma uma história de destruição emocional em “litígio entre ex-companheiros”, reforça o ciclo de impunidade e silencia milhares de mulheres. E o preço desse silêncio é alto: cansaço físico, esgotamento mental, ruína financeira e a sensação de que lutar não adianta.

As marcas físicas um dia somem. As da alma, não. Ficam ali, como cicatrizes de um sistema que insiste em medir a dor feminina por hematomas e não por humilhações, por boletins e não por laudos psiquiátricos, por formalismos e não por humanidade.

O machismo ainda tem assento nos tribunais. Ele aparece nas entrelinhas dos acórdãos, nas justificativas técnicas que servem para negar proteção, nas entrelinhas de votos que soam imparciais mas carregam séculos de descrédito contra a palavra da mulher.

Mesmo assim, eu não desisto. Não posso. Porque toda vez que uma mulher é silenciada pela Justiça, outras aprendem que o silêncio parece mais seguro do que a exposição. E é exatamente isso que precisamos quebrar.

Escrevo este texto para que quem lê saiba: não está sozinha. Mesmo que o sistema ainda falhe, mesmo que as portas se fechem, ainda vale a pena lutar. Porque enquanto houver uma voz — mesmo cansada, mesmo ferida — dizendo que a violência não acabou, que ela apenas mudou de forma, haverá esperança de mudança.

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