Uma ardência que toma a boca - principalmente a língua - como se estivesse em brasa e insiste em permanecer mesmo sem qualquer ferida visível. Para milhares de pessoas — especialmente mulheres entre 50 e 70 anos — esse sintoma é parte da rotina diária. Trata-se da Síndrome da Ardência Bucal (SAB), uma condição ainda pouco compreendida e frequentemente subdiagnosticada. Agora, um novo estudo internacional publicado este mês reforça algo que a prática clínica vem indicando há anos: a SAB não é apenas um problema na boca, mas uma condição multifatorial que envolve mente, sono e sistema nervoso.
A pesquisa, divulgada na revista inglesa Oral Diseases e conduzida por grupos do Brasil, Estados Unidos e Espanha, analisou 22 estudos com 2.786 pacientes. Os números chamam atenção: 71% apresentam distúrbios do sono, 65% sofrem de ansiedade e 60% convivem com depressão. Ou seja, em boa parte dos casos, a queixa de ardência é apenas a face mais visível de um quadro amplo que muitas vezes passa despercebido pelos próprios pacientes.
- FIQUE ATUALIZADO: Siga nossas redes sociais e receba informações em tempo real (WhatsApp, Telegram e Instagram)
Essa falta de compreensão faz com que muitas pessoas enfrentem uma verdadeira peregrinação. Trocam pastas de dente, evitam determinados alimentos, fazem diversos exames e continuam sem respostas. A Síndrome da Ardência Bucal não deixa marcas na mucosa, mas impacta profundamente a qualidade de vida, a autoestima e a estabilidade emocional. A predominância em mulheres no período pós-menopausa não é coincidência: alterações hormonais afetam a sensibilidade oral e o limiar de dor, o que contribui para o surgimento ou agravamento da condição.
O ponto central que o novo estudo confirma é que avaliar apenas a cavidade oral é insuficiente. A ardência bucal é real e persistente. E mais: ela pode ser consequência de um desequilíbrio maior relacionado ao sono, à ansiedade, à depressão ou a mecanismos neurológicos ainda pouco compreendidos. Quando esses fatores não são investigados, o tratamento fica incompleto.
Se a condição é multifatorial, a abordagem terapêutica também precisa ser. Não existe uma solução única, mas há caminhos eficazes quando o plano é individualizado. Laserterapia para modulação da dor, hidratação profunda da mucosa com vitamina E, moduladores neurais tópicos, intervenções nutricionais quando há deficiências e acompanhamento psicológico direcionado formam um conjunto de estratégias que, combinadas, oferecem alívio real e consistente.
O maior equívoco no manejo da Síndrome da Ardência Bucal é tratar apenas o sintoma. É como tentar apagar o fogo sem olhar para o que mantém a chama acesa. Se o paciente dorme mal, vive em estado de ansiedade ou enfrenta depressão, nenhuma medicação ou laser terá efeito duradouro. Por isso, a mensagem que a pesquisa deixa é clara e urgente: a ardência bucal exige uma abordagem multidisciplinar, investigação ampla e sensibilidade clínica.
A condição não é uma doença da língua. É uma doença que se manifesta na língua. Compreender essa diferença é fundamental para que profissionais e pacientes caminhem juntos rumo a tratamentos mais efetivos e à recuperação da qualidade de vida de quem convive com essa queimação persistente.
*Arlindo Aburad é dentista e doutor em Patologia Bucal pela USP/SP












