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Opinião Sexta-feira, 30 de Outubro de 2020, 14:28 - A | A

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2020, 14h:28 - A | A

LUANA SOUTOS

O Brasil é o Chile

Luana Soutos*

Nesse momento, o Chile está em festa. Finalmente a população, unida, conseguiu acabar com o legado da ditadura militar no país: neoliberalismo – em outras palavras, “capitalismo selvagem”. Também pode ser chamado de “ausência total de direitos para a população”, “aprofundamento da desigualdade social” ou “muito dinheiro concentrado nas mãos de poucos e outros milhares passando todo tipo de necessidade”. 

Opa, mas parece que já vimos isso em algum outro lugar, não?

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Sim! No Brasil. Na verdade a gente vê no mundo todo, porque esse é o grande projeto capitalista para o planeta Terra. Mas na América Latina a coisa acontece de forma muito agravada e semelhante entre os países.

Primeiro, porque nossa história de colonização, de assassinato dos povos originários e de saque das nossas riquezas é praticamente igual – respeitando as especificidades. Por isso, não é coincidência que os países chamados “de primeiro mundo” sejam tão potentes e menos desiguais e nós, chamados “de terceiro mundo”, tenhamos tantos problemas. E desde que nos “descobriram”, apesar dos históricos de independência, os países “desenvolvidos” decidem como serão as nossas vidas – observem as aspas, elas não estão aí por acaso.

Segundo que, quando os países latinos conseguem entender toda essa história de extorsão, e que as políticas adotadas pelos governos - até os dias de hoje - limitam, condicionam, prejudicam a população; quando começam a entender que tudo poderia ser diferente, a regrinha é: implementar uma ditadura militar para impedir qualquer mudança. Geralmente sob o pretexto da uma “ameaça comunista”. Foi assim no Chile, no Brasil, na Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Peru, Nicarágua, Guatemala, Republica Dominicana e Equador. A maioria dos golpes iniciados entre as décadas de 1960 e 1970, porque Cuba efetivou sua revolução em 1959, e as grandes potências mundiais “não admitiriam outra Cuba na América Latina”.      

Mas escrevi tudo para dialogar com declarações de políticos brasileiros após a vitória da população chilena, em especial, Rodrigo Maia, que é chileno, mas, por motivos que desconhecemos, decidiu vir “prestar seus serviços” por aqui. Coisa semelhante ocorreu com Paulo Guedes, que passou pelo Chile para ajudar Pinochet a retirar direitos da população. Bem, provavelmente, depois da ditadura militar chilena, não restou mais nada para retirarem do povo, então caíram aqui.  

Nesse contexto, enquanto alguns disseram que o Brasil também precisa de uma nova Constituição (obviamente para retirar mais direitos), Rodrigo Maia teve a cara de pau de dizer que “o Brasil superou a ditadura com a Constituição de 1988, e que os problemas do país serão resolvidos com as Reformas”. E mais: nem gaguejou para dizer tamanho absurdo! Ora, acontece que essas “reformas” são justamente a destruição dessa Constituição de 1988. Projetos de Emendas Constitucionais, as famosas PEC’s, são alterações da constituição. E essas alterações, aprovadas por esses senhores – Paulo Guedes, Rodrigo Maia e tantos outros - são sempre no sentido de retirar direitos previstos na Constituição.

Ou seja, nós estamos seguindo no sentido contrário do Chile. Os chilenos perderam direitos com o neoliberalismo implementado pela ditadura de Pinochet e, agora, com um movimento massivo, devem recuperar. Nós, brasileiros, conquistamos direitos com a Constituição de 1988, mas a partir do primeiro governo neoliberal – de Fernando Collor, na década de 1990 -, começou a destruição desses direitos, por meio das “reformas” (da Previdência, Administrativa/ de Estado, Trabalhista).

Isso quer dizer que, se nós, brasileiros, ainda não temos motivos para ir às ruas reivindicar direitos, como fazem os chilenos – lindamente, diga-se de passagem -, nós teremos os mesmos motivos em breve. E aí ninguém vai poder dizer que o Brasil e o Chile são diferentes.

Viva o povo chileno!

 

* Luana Soutos é jornalista e socióloga     

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