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Opinião Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026, 07:26 - A | A

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026, 07h:26 - A | A

CLAITON CAVALCANTE

Mãos exemplares

Claiton Cavalcante*

Dias atrás, final de semana, e como de costume — mas já sabendo da minha resposta — minha mulher me convidou para almoçar fora. Respondi que não. Ela já se acostumou. Inclusive, até brinca, dizendo que sou antissocial.

Como não fui ao banquete dominical, fiquei “sozinho” em casa, conversando com as paredes e com a espiritualidade. Foi então que liguei a smart TV e, em um aplicativo de música, de forma aleatória, surgiu o vídeo da canção Mãos, composta por Almir Guineto e conhecida na voz de vários intérpretes.

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Ouvi atentamente a letra, que transita por temas densos: crítica à corrupção, manipulação do sistema e reflexões profundas sobre justiça. Apesar de o pano de fundo ser sombrio, logo na primeira estrofe a música lamenta a quase extinção das “mãos honestas, amorosas”, denunciando como a integridade se tornou artigo raro em ambientes dominados por interesses escusos. A canção evoca imagens fortes: mãos que lavam outras mãos, mãos que se omitem, mãos que se rendem, e nos convida a refletir sobre responsabilidade, caráter e escolhas.

Malgrado minhas imperfeições, considero-me uma pessoa abençoada. E digo isso com convicção, porque ao longo da vida sempre encontrei Mãos estendidas em minha direção. Foram, e continuam sendo, muitas Mãos que me ajudaram, orientaram e apontaram caminhos quando a dúvida ou o cansaço insistiam em aparecer.

Neste texto, contudo, vou me ater apenas às Mãos profissionais. Àquelas que confiaram em mim o primeiro emprego, que me apresentaram uma nova profissão, que incentivaram a qualificação constante e que, já no serviço público, se revelaram Mãos honestas, firmes e dignas de autoridades que compreendem o verdadeiro sentido de servir. Peço vênia a todos os ex-patrões, mas, nas linhas que seguem, faço um reconhecimento singelo, porém necessário a quatro Mãos, pertencentes a dois grandes homens públicos, detentores de invejável saber jurídico-profissional e de uma sabedoria ainda maior: a de lidar com pessoas, do mais simples ao mais graduado.

Sinto-me honrado por ter feito, e continuar fazendo, parte da equipe que compõe a assessoria de um deles. Ambos são servidores do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, selecionados para integrar a Corte por meio de um dificílimo concurso público. Um, sul-mato-grossense, trilhou o caminho da auditoria, tornando-se Auditor Substituto de Conselheiro; o outro, piauiense, pelo Ministério Público de Contas, alcançou o cargo de Procurador-Geral de Contas e, posteriormente, o de Conselheiro.

Falo de Isaias Lopes da Cunha, Auditor Substituto de Conselheiro, com quem trabalhei durante muitos anos e cuja trajetória é marcada pelo rigor técnico, pela formação sólida em contabilidade e ciências jurídicas e, sobretudo, pela postura humana. Isaias sempre esteve com as Mãos estendidas, não apenas para orientar processos, mas para formar pessoas, incentivar o estudo, exigir com justiça e ensinar pelo exemplo. Suas Mãos nunca empurraram; sempre conduziram.

O sul-mato-grossense, em suas diversas atuações: seja na relatoria de processos ou no papel de instrutor, sempre demonstrou que a contabilidade e o controle externo não são apenas números e normas, mas ferramentas de justiça social, de transparência e de valorização institucional.

E falo também de Alisson Carvalho de Alencar, com quem trabalhei quando, à época, exercia o cargo de Procurador de Contas junto à Corte mato-grossense. Hoje, tenho a satisfação de novamente integrar sua equipe, agora sob sua investidura no nobre cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso.

O piauiense reúne rara combinação de erudição jurídica, experiência institucional, acadêmica e sensibilidade humana. Suas Mãos sabem ser firmes quando a lei exige, mas jamais se afastam do diálogo, da sabedoria, do respeito e da formação de quadros de pessoal comprometidos com o interesse público.

Prova disso, é que recentemente, ao assumir o cargo de Conselheiro, o mais jovem empossado na história da Corte, Alisson reafirmou um compromisso que sempre esteve presente em sua trajetória: o compromisso com a gestão pública.
Assim, ao ouvir Mãos, compreendi que, apesar de o mundo insistir em exaltar aquelas que tomam, ocultam ou se omitem, ainda existem Mãos que sustentam, orientam e levantam. Mãos que não se fecham no poder, mas se abrem para o serviço. Ter cruzado o caminho dessas Mãos não foi acaso, foi bênção. Obrigado, Excelências.

*Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis e do Instituto dos Contadores do Brasil.

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