Escrevo estas palavras com o coração cheio de respeito, admiração e gratidão. Ao longo do tempo em que tenho convivido com vocês, aprendi que a cultura Bóe Bororo não é apenas um modo de viver, mas uma forma profunda de compreender o mundo, a natureza, o tempo e o espírito.
Sou imensamente grato pela hospitalidade que sempre me foi oferecida, pelo cuidado constante, pela atenção sincera e pelo acolhimento verdadeiro que recebo em cada período que passo na aldeia. Em especial, registro minha eterna gratidão por ter sido adotado por uma família Bóe Bororo e por ter recebido um nome indígena, um gesto que carrego como uma das maiores honras da minha vida.
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Cada vivência, cada ensinamento e cada partilha reforçaram em mim um sentimento de pertencimento e respeito sagrado por esta terra e por este povo. Por isso, afirmo de forma consciente, serena e definitiva: quando minha caminhada nesta vida chegar ao fim, desejo ser sepultado em terras sagradas do povo Bóe Bororo, e que meu funeral siga integralmente os rituais, valores e tradições da cultura indígena, da forma que for considerada correta e digna pelos anciãos e pela comunidade.
Declaro também, de maneira clara e inequívoca, que não desejo a presença de familiares não indígenas ou de qualquer pessoa externa à cultura Bóe Bororo durante meu funeral. Da mesma forma, não autorizo registros de qualquer natureza, sejam eles fotográficos, audiovisuais, escritos ou digitais. Este momento deve permanecer restrito ao sagrado, à tradição e à memória viva do povo, sem qualquer forma de exposição ou preservação para posteridade.
Nesta mesma carta, deixo expressamente informado aos meus familiares que esta é minha última vontade, construída a partir de experiências reais, profundas e cheias de significado. Solicito, com firmeza e respeito, que não haja qualquer obstrução, questionamento ou impedimento ao seu cumprimento. Que esta decisão seja respeitada em sua totalidade.
Determino ainda que, em minha sepultura, não seja colocada cruz ou qualquer símbolo que não pertença à cultura Bóe Bororo. Desejo apenas um tronco, simples e respeitoso, com uma escrita que identifique quem fui, em harmonia com a tradição, com a terra e com o entendimento espiritual do povo.
Que esta carta seja compreendida não como um rompimento, mas como um testemunho de pertencimento, honra, amor e gratidão eterna. O povo Bóe Bororo faz parte da minha história, da minha identidade e do meu espírito.
Com profundo respeito e eterna gratidão.
*CESAR AUGUSTO é fotógrafo e documentarista em Rondonópolis.













