Criado na década de 1960 com a proposta de funcionar como uma “cidade célula”, o Bairro Santa Rosa se consolidou ao longo dos anos como um dos endereços mais valorizados e símbolo de status em Cuiabá. Nas últimas décadas, porém, a região passou por um processo de esvaziamento, impulsionado pelo aumento da insegurança e pela migração de famílias para condomínios fechados.
Cansados de viver à mercê do medo, moradores se uniram para recuperar a tranquilidade nas ruas e implementaram o “Comunidade Inteligente Santa Rosa”, um sistema pioneiro de monitoramento integrado à Polícia Militar que ajudou a reduzir a criminalidade e fez o tradicional bairro voltar a atrair moradores, empresas e investimentos.
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“Era um bairro de elite, com muita qualidade de vida. As crianças brincavam na rua, na praça. Com o tempo, com a violência, foi todo mundo se encolhendo nas próprias casas”, relembrou a psicóloga hospitalar Bia Calmon, de 61 anos, moradora do Santa Rosa há três décadas.
Ela foi uma das pessoas que lideraram a iniciativa, indo de casa em casa para convencer os moradores a aderirem ao projeto. Hoje, o bairro conta com cerca de 160 câmeras espalhadas pelas ruas, monitoradas em tempo real tanto pelos moradores quanto pela Polícia.
“Hoje nós não temos sensação de segurança. Nós temos certeza da segurança. Mas a câmera sozinha não resolve. O diferencial foi a parceria com a Polícia. Um complementa o outro”, afirmou Bia.
A iniciativa começou em 2021 e, segundo ela, o estopim foi perceber que os moradores estavam abandonando o bairro. “Eu comecei a ficar angustiada. Falei para uma amiga: ‘Vai sobrar só eu aqui’. Todo mundo estava mudando”, contou.
O modelo foi inspirado em experiências implementadas em Joinville (SC) e a proposta consistia na instalação de câmeras voltadas para as vias públicas, monitoradas em conjunto pela comunidade e pela Polícia Militar.
Além das câmeras, os moradores passaram a se comunicar em grupos de WhatsApp, onde compartilham informações sobre movimentações suspeitas e acionam rapidamente as equipes policiais.
O presidente do bairro, José Pires Filho, de 64 anos, acompanha essa transformação de perto. Morador do Santa Rosa desde 1986, ele diz que viu o bairro crescer praticamente do zero, enfrentar o seu pior momento e se reerguer.
“A mudança foi muito grande. Quando eu mudei para cá não tinha nada. Pouquíssimas casas. Era uma fazenda do João Balão [engenheiro idealizador do bairro]. E hoje temos o Shopping, várias clínicas e restaurantes”, afirmou.
Descrito pelos moradores como mais que um presidente, José Pires atua como um verdadeiro “síndico” do Santa Rosa, acompanhando as câmeras instaladas pela empresa Camerite em tempo real.
À reportagem, ele demonstrou, na prática, o funcionamento do aplicativo, por meio do qual os moradores, mediante pagamento de uma taxa mensal, têm acesso em tempo real às imagens e a um botão de alerta que aciona diretamente policiais do 10º Batalhão diante de qualquer movimentação suspeita.
“Se acontece um furto ou roubo, o sistema dispara no celular do comandante e do policial que está de plantão. O ladrão sabe que aqui é problema”, afirmou.
José é mais um dos moradores que afirmam não ter intenção de deixar o Santa Rosa. “Morar aqui é bom demais. Eu não troco minha casa por apartamento, condomínio, nada. Quero ficar aqui mesmo”, afirmou.
Para ele, viver em condomínio significa abrir mão da autonomia. “Prédio, apartamento, condomínio é igual um exército. ‘Sim, senhor’, ‘não, senhor’. Tem que pedir autorização para tudo. Na sua casa, não. Entrou para dentro, é sua”, completou.
Caminho inverso
O CEO da Unificatto, Ulisses Calhao Filho, de 45 anos, fez o caminho inverso e saiu de um condomínio fechado para morar com a família em uma casa no Santa Rosa há quatro anos.
“Meu sogro é delegado aposentado. Fiquei cheio de ‘dedos’ para contar que tinha saído do condomínio para morar em um bairro aberto”, lembrou.
A reação, porém, foi oposta ao esperado. “Ele falou: ‘Você fez uma excelente aquisição’. Disse que o Santa Rosa tinha uma base da polícia integrada com os moradores e um sistema de câmeras em todas as ruas”.
Hoje, além de morar no bairro com a esposa e os dois filhos, Ulisses também transferiu o escritório da empresa para a própria residência.
“Eu passei a ter uma qualidade de vida fora do normal. Trabalho perto de casa, meus filhos participam mais da rotina da empresa e a sensação de segurança aqui é gigantesca. Parece condomínio fechado”, afirmou.
União de forças
O comandante do 10º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Bruno Marcel Souza Tocantins, afirmou que o Santa Rosa se consolidou como um dos bairros mais seguros da região oeste de Cuiabá. “É um dos bairros mais tranquilos da minha região, e eu tenho 41 bairros e 3 distritos sob minha responsabilidade”, afirmou.
Segundo ele, a realidade era bem diferente há cerca de cinco anos, quando o bairro enfrentava uma onda de furtos e roubos que levou muitos moradores a deixar a região. “Era quase uma cidade fantasma. Mas hoje, essa realidade mudou completamente”, disse.
De acordo com o comandante, atualmente os registros mais frequentes são de furtos em veículos, principalmente nas proximidades de restaurantes e clínicas instalados no bairro. “Roubo com violência é praticamente zero”, disse.
Para ele, a transformação está diretamente ligada à integração entre moradores, Polícia Militar e tecnologia.
“A Polícia Militar faz o patrulhamento orientada pela comunidade, que informa quando há alguma atitude suspeita em determinada rua. A polícia deixou de fazer aquele policiamento tradicional em todas as ruas, como uma barata tonta, sem saber onde tem o maior índice de ocorrência”, disse.
Hoje, além das 160 câmeras privadas, são aproximadamente 30 câmeras do programa Vigia Mais Mato Grosso, posicionadas em pontos estratégicos ao redor da região.
Segundo o comandante, o sistema já contribuiu para evitar crimes, identificar suspeitos e realizar prisões em flagrante.
O sonho que virou decepção
Apesar dos relatos, nem todos compartilham da mesma percepção de segurança. O cirurgião-dentista Julivan Torales Trindade, morador do bairro há 25 anos, afirmou que já teve a casa invadida duas vezes e recentemente foi seguido por criminosos até em casa.
“Foram umas cinco situações em que fui seguido. Já tive que correr até a porta do batalhão e buzinar”, relatou.
Em um dos assaltos, o prejuízo ultrapassou R$ 100 mil. “Levaram equipamentos, televisão, joias, tudo que eu tinha de maior valor. Arrebentaram a casa, destruíram tudo”, afirmou.
Apesar de reconhecer que o sistema de monitoramento reduziu a criminalidade na região, Julivan afirmou que ainda pensa em deixar o bairro. “Eu daria nota menos cem para a segurança. Estou lutando para me mudar há anos”, disse.
Segundo ele, o bairro está abandonado pelo poder público, principalmente nos últimos mandatos municipais. Além da falta de limpeza e manutenção, parte da região ainda sofre com ruas sem pavimentação.
Morador da Rua Espanha, Julivan afirmou estar cansado de conviver com os transtornos causados pela falta de pavimentação. Segundo ele, é frequente precisar usar a própria caminhonete para ajudar motoristas que ficam atolados no trecho de terra em frente à sua casa.
“Nos últimos oito anos, se veio limpeza aqui três ou quatro vezes, foi muito. O pessoal vinha, prometia e não fazia nada. O sonho era morar no Santa Rosa, um bairro diferenciado. Hoje, se tornou decepcionante”, criticou.
O advogado Juliano Fabrício de Souza, de 51 anos, também viveu momentos traumáticos no Santa Rosa. Em 2012, três homens armados invadiram sua casa enquanto a esposa, grávida de nove meses, estava no imóvel. “Não sei como ela não pariu na hora”, relembrou.
Segundo ele, foi justamente nesse período de insegurança que moradores se uniram para retomar a atuação da Associação dos Moradores do Bairro Santa Rosa (AMOSANTA), que passou a articular melhorias para a região, cobrar respostas do poder público e estreitar a parceria com a Polícia Militar. “Começou um movimento comunitário forte”, disse.
Juliano afirmou que a transformação do bairro ganhou força com a implantação do sistema de monitoramento comunitário. “Hoje o bairro inteiro é monitorado. Quem entra e quem sai acaba identificado. Isso mudou completamente a realidade daqui”, afirmou.
Ele também relembrou que, durante a construção do Shopping Estação, a associação questionou judicialmente a falta de diálogo do empreendimento com a comunidade sobre os impactos da obra. A mobilização resultou em medidas compensatórias, entre elas a construção da base da Polícia Militar no Santa Rosa e a revitalização de duas das principais praças do bairro.
Além disso, segundo Juliano, os próprios moradores arrecadaram cerca de R$ 70 mil para mobiliar e estruturar a base policial. “Todo mundo concordou em investir porque era o que a comunidade precisava naquele momento”, afirmou.
Para ele, além da localização privilegiada, próxima ao Centro, o contato com a natureza é um diferencial na Capital. O advogado conta que já viu tamanduás-bandeira, capivaras, jiboias e até veados atravessando as ruas do bairro. “É uma região central, mas, ao mesmo tempo, muito próxima da natureza. Isso faz daqui um lugar único”, disse.
Renascimento do Santa Rosa
O dirigente da Rosa Imóveis e diretor-secretário do Secovi-MT (Sindicato da Habitação), Guido Grando Júnior, de 46 anos, avalia que o Santa Rosa vive uma nova fase de valorização imobiliária e retomada urbana.
Segundo ele, 2025 registrou o maior volume de negociações imobiliárias da história do bairro, ultrapassando R$ 70 milhões em compra e venda de imóveis. “O bairro está renascendo e redescobrindo seu objetivo”, afirmou.
Para Guido, a transformação foi impulsionada principalmente pelo fortalecimento do senso de comunidade entre os moradores. “Eles recriaram a associação, trouxeram a polícia comunitária, instalaram câmeras e passaram a cuidar do bairro. Isso atraiu investidores, empresas e moradores novamente”, disse.
Entre os novos empreendimentos instalados ou em construção na região estão hospitais, escolas e o Baalbek, futuro maior prédio de Cuiabá e do Centro-Oeste, com 50 andares e 183 metros de altura.
O empresário afirmou que o principal diferencial do Santa Rosa continua sendo a localização privilegiada, próxima ao Centro, cercada por importantes avenidas e também por áreas verdes. “Sempre digo que o imóvel tem três características principais: localização, localização e localização. É uma coisa que você não consegue mudar”, afirmou.
Guido também defende que o novo Plano Diretor de Cuiabá será decisivo para consolidar o processo de transformação vivido pelo bairro. Segundo ele, a proposta prevê maior diversidade de atividades compatíveis com a vocação residencial da região, permitindo aproximar moradia, comércio e serviços.
“A pessoa não pode morar aqui e precisar atravessar a cidade inteira para trabalhar”, disse.
“O desafio é regulamentar aquilo que o bairro quer ser e não aquilo que a legislação antiga ainda insiste que ele seja. Só assim o Santa Rosa vai conseguir sair dessas amarras legais e alcançar todo o potencial que tem”, concluiu.












