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Brasil Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2020, 16:04 - A | A

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2020, 16h:04 - A | A

DADOS DO PRONTUÁRIO

Documento confirma falta de medicação para sedar estudante que morreu por covid-19

Prontuário revela o uso não recomendado de morfina no Hospital Florianópolis e a falta de bloqueadores neuromusculares, medicamento usado para intubação de pacientes em estado grave em respiradores.

Lúcio Lambranho | Notícias de SC

Documento obtido com exclusividade pelo ND+ traz ainda um pedido de transferência do jovem, mas que não foi realizado, para uma unidade de saúde que tivesse a sedação adequada. Promotor de Justiça que investiga ação do hospital, após a revelação da reportagem que denunciou o caso em setembro, diz que “estuda possibilidade” de propor ação cível contra o hospital em janeiro e encaminhar pedido para que outra promotoria investigue a responsabilidade criminal dos envolvidos.

Mateus Felippe de Souza, estudante de Direito da Unisul, não tinha histórico de doenças graves ou comorbidades, mas no dia 15 de julho morreu, após 23 dias de internação no Hospital Florianópolis, unidade de referência para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus na região da Capital. A morte do estudante foi declarada às 9h46min do dia 15 de julho, mas antes do quadro de saúde do paciente se tornar gravíssimo, médicos e enfermeiros alertaram no seu prontuário que faltavam na unidade pública de saúde bloqueadores neuromusculares, classificados pela sigla médica BNM.

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O uso destes medicamentos poderiam ter feito com que a sedação do jovem fosse realizada sem que ele ficasse desconfortável no respirador e em sincronia com a máquina usada para recuperação de pacientes em estado grave da doença.

O prontuário do paciente confirma também o uso em pelo menos 20 vezes de morfina para sedar o estudante internado, droga não recomendada por médicos e especialistas em anestesia desde o começo da pandemia. A droga foi usada no primeiro dia da intubação e de entrada do estudante na UTI no dia 22 de junho.

Entre outras anotações do documento estão relatos da falta de BNM no hospital, fato negado até agora pelo Hospital Florianópolis. Destacamos o registro do dia 5 de julho, conforme atesta o documento abaixo:

Documento revela falta de medicação para infusão continua de bloqueador neuromuscular. Arte: Rogério Moreira Júnior/ND

Nele está anotado que o paciente estava “em assincronia franca com o VM (ventilador mecânico)”. “Foi necessário realizar bloqueio neuromuscular e aumento da sedação para acoplá-lo…Por volta das 6h realizado 4mg de pancurônio, finalmente ficando confortável no ventilador. Hospital está em falta de BNM para infusão contínua”.

O registro pode indicar que por falta dos BNMs ou em quantidade suficiente, o hospital não estava usada o volume necessário deste tipo de medicamento, caso do pancurônio administrado ao estudante neste dia.

Os BMNs foram usados em combinação com outros sedativos, incluindo a morfina, que pode provocar efeitos negativos em pacientes com Covid-19.

Quando foi questionado há três meses, o hospital já admitia que além dos bloqueadores recomendados, houve também aplicação de sedativos, mas sem informar se tinha sido ou não usada a morfina.

Como a reportagem do ND+ mostrou em setembro, a família informa que foi questionada se Mateus usava drogas ou álcool, pois a sedação administrada no rapaz não estava surtindo efeito, o que remete ao termo “ventilação difícil”, descrita pela unidade de saúde em resposta ao promotor de Justiça que investiga do caso após a publicação da matéria.

Outra anotação que demonstra a gravidade da situação pela falta da medicação. É uma recomendação de transferência de Mateus registrada três dias depois, em 8 de julho, como revela o documento abaixo.

Documento atesta recomendação médica para transferência do estudante por falta de bloqueador neuromuscular Arte: Rogério Moreira Júnior/ND

“Converso com médico da rotina sobre piora gradativa de paciente e necessidade de bloqueador neuromuscular. Orienta solicitar transferência via NIR de paciente para unidades com disponibilidade de medicamentos. Conduta. Solicito transferência de paciente – Comunico NIR“, informa o prontuário. NIR é a sigla para Núcleo Interno de Regulação (NIR), unidade dos hospital públicos que administram a transferência de pacientes.

Os documentos em sequência não mostram por que Mateus não foi transferido como sugeriu o médico de plantão na UTI.

Novamente questionado pela reportagem, o Instituto Maria Schmitt (IMAS), que administra o hospital desde 2018, informou que não faria novas declarações sobre o caso, pois já repassou todas as informações para a Promotoria de Justiça da Capital que investiga o caso.

O promotor que atua no caso confirmou ao ND+ que sua apuração iniciada em 10 de setembro já comprovou a falta dos BNMs no hospital. “Existe a possibilidade de ajuizar uma ação civil pública contra o IMAS no início do ano que vem e aguardo informações requisitadas hoje (15/12) para instruir a inicial. E é muito provável que devo encaminhará o inquérito civil para o colega com atuação criminal”, afirma Luciano Trierweiller Naschenweng.

Os novos documentos pedidos pelo promotor e enviados ao IMAS nesta terça-feira (15) com prazo de cinco dias para o envio das respostas são os seguintes: relatório do acervo dos medicamentos necessários para intubação de pacientes (analgésicos, bloqueadores neuromusculares e sedativos) desde janeiro deste ano e “cópia das solicitações dos referidos medicamentos a outras unidades hospitalares ou à Secretaria do Estado da Saúde, quando da insuficiência”.

Faltas de bloqueador neuromuscular foram registradas no prontuário do estudante. Arte: Rogério Moreira Júnior/ND

O ND+ também questionou a Secretaria de Saúde sobre o caso, mas não recebeu retornou sobre o pedido de informações até o fechamento desta reportagem. O espaço ainda está aberto para os esclarecimentos.

 

 
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