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Agronegócio Sábado, 17 de Janeiro de 2026, 09:30 - A | A

Sábado, 17 de Janeiro de 2026, 09h:30 - A | A

FALHA DO AGRO

“Nós não sabemos contar a nossa história”, diz ex-ministro da Agricultura

Maiara Max

Repórter | Estadão Mato Grosso

O ex-ministro da Agricultura, Antônio Cabrera, afirmou que um dos maiores erros do agronegócio brasileiro foi não saber se comunicar e se aproximar da sociedade ao longo dos anos. A avaliação foi feita durante o evento que marcou os 10 anos do Centro Tecnológico Parecis (CTECNO Parecis), realizado no dia 15 de janeiro, em Campo Novo do Parecis, pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT).

“Talvez um dos maiores problemas nosso hoje é que nós não sabemos contar a nossa história”, disse Cabrera ao comentar a relação entre o setor produtivo e a população urbana. Segundo ele, o distanciamento histórico entre o campo e a cidade contribuiu para a falta de compreensão sobre como os alimentos são produzidos no país.

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Para o ex-ministro, parte dessa falha passa pela própria postura do produtor rural, que muitas vezes se manteve afastado do debate público. “Talvez o produtor, por exercer a sua atividade longe dos grandes centros, ele fala: ‘Não, deixa pra lá, eu quero ficar aqui na minha fazenda, eu tenho plantio, eu tenho colheita para fazer’. E ele não se preocupou com isso, de se aproximar da sociedade”, afirmou.

Cabrera avaliou que a intensa migração do campo para as cidades aprofundou esse distanciamento. “Nós tivemos uma grande migração, maior do que o êxodo bíblico. Essas pessoas que viviam no campo hoje vivem na cidade. E a maioria dos jovens, de 30 anos para baixo, não tem a mínima ideia do que é produzir um ovo, um frango, um quilo de soja, um quilo de arroz”, declarou.

Segundo ele, a sociedade brasileira se tornou majoritariamente urbana, o que reforça a necessidade de diálogo por parte do setor produtivo. “A gente tem que contar, porque 90% dos brasileiros hoje vive no asfalto. O problema não é pequeno, é gigantesco”, ressaltou.

Ao relembrar a própria trajetória no setor, o ex-ministro citou a evolução da agricultura brasileira como exemplo de transformação que, segundo ele, não foi devidamente explicada à sociedade. “Na minha época você não podia plantar transgênico. O STF me obrigava a queimar uma soja. Hoje 98% da soja ela é transgênica. Então, você imagina, mudamos da água para o vinho”, disse.

Cabrera destacou ainda que o Brasil deixou de ser apenas um grande consumidor para se tornar um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. “Eu vinha ao Mato Grosso e falava para os produtores que a maior fazenda do Brasil se chamava Porto de Santos. Era por lá que passava a nossa carne, o nosso leite, o nosso arroz, o nosso feijão. Hoje mudou. O Brasil é o maior exportador. A gente já passou muito”, afirmou.

Para ele, a solução passa por iniciativas que aproximem o campo da sociedade, especialmente por meio da educação. Cabrera elogiou ações da Aprosoja voltadas à abertura das fazendas para estudantes e defendeu que o setor produtivo precisa assumir a responsabilidade de explicar como produz alimentos, fibras e energia. “Esse é um erro nosso, é uma falha que a gente precisa corrigir urgente”, concluiu.

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